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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Reunião de ideias


I módulo

CENAS
Corpos linhas de sangue
Aquele beijo
Inconsciente visível

IMAGENS
Cachorro / corpo Carmen possuído pelo corpo

II módulo
CENAS
Meu corpo me permite o equilíbrio
Carmen e Guy
Perto de você seria impossível me encontrar

IMAGENS
Espiral
Corpo, peso morto
Marcelo pendurado

TEXTOS
Vender corpos
Meu corpo me permite/me impede
                - meu corpo me impede de fugir de você
                - meu corpo me permite estar parado, estagnado
                - meu corpo me permite a entrega
                - meu corpo me permite continuar/limitar

III módulo
OFICINAS CENA
Hai kai
Histórias do corpo (trajetório da velhice)
Depoimento (com Hai Kai?) (depoimento individual/depoimento comum)
Cadeiras (Rê)
Movimentação espacial (Rê)

MAIS
Eu me envolvo e sou tragado pelas suas carícias, eu só me encontro se me perco no teu corpo (VIVI E CELO)
Rosto coberto e corpo nu
Guy todo amarrado
Descrever o que vê e o que não vê
Escovar os dentes (Carmen) + elogio do cotidiano = rotina do corpo (e meu corpo me permite)
Pele/boca: vagina à primeira cicatriz
Grade e tampar o rosto (Lucélia)
Linha do tempo das pessoas
Falar outras línguas

Ir com o olhar e edesviar com o corpo


Minha carne
- nu; purista: vestir após paraíso + velhice
- nascimento , caverna, parto inverso
- morte – conversando com um cadáver
- vitrine, deformação
- anatomia – cena jornalística
- cicatrizes – histórias
- memórias
- assédio e perversão
- deformações
- corpo verbal
- microscopia
- primeira cicatriz
- cadáver
- peso da gravidade sobre o corpo
- banho (ensaboar) + MÚSICA corpo de dentro pra fora
- Bárbara e Celo: dilatação da penetração
- molduras
- dança em que não s eolham (Lupe e Clarice) + desenho da silhueta com o gesto
- cigarro (Carmen e Ju)
- Fragmentos de espelho
- Adão e Eva (Alê e Guy)
- Marcha nupcial
- roupa que enforca
- mão como outra
- surra: não dói / arma / pai
- Eu me sinto... (brigamos e depois brincamos)
- Carrinho + você pode me dizer o que eu sou
- BUM BUM
- Rastro
- pêndulo (com morangos mofados)
- o que tiramos do processo (para cena final) + aquilo que se modificou
- Você me ama ou ama minha carne?

Textos da Clarice


Primeira Cena Individual
(Entra no palco e caminha em direção ao público afirmando).
-O corpo é inconsciente visível.
(Vai perdendo foco do público concentrando-se nas mãos e tentando relembrar o que disse).
- O corpo é inconssssss...
(Desequilibra para o lado).
-O corpo é consciente visível????
(Percebe que errou, desequilibra para frente, tenta concertar o erro e toma impulso para falar).
-Ooooooo...
(Esquece completamente e cai no chão, se levanta ainda bambeando enquanto diz).
- O corpo é inconsciente, é fluído, poético , imagético...
(Vai passando a mão pelo seu corpo regozijando, enquanto repete a fala brincando com variações das três palavras).
- O corpo é inconsciente, flui, faz poesia, faz imagem...
(Mão direita começa a bater na mão que acaricia, vai levantando, uma mão vai dizendo não enquanto a outra bate a abaixando. Um lado argumenta com o outro, enquanto a voz vai se alterando).
- O corpo é sim inconsciente, livre, o corpo é...
(Engole palavra, reflexo dessa no ombro que treme. Como se voltasse a si diz).
- O corpo é inconsciente visível, podendo agir também conscientemen...
(É interrompida, reflexo da perna para trás. Tique no pé, tenta pisar em cima do pé para para-lo).
-O corpo é cons-cons-ci-ci...
(Corpo começa a tremer, cosnciêcia tenta controla-lo).
-O corpo é consci, consciente, consciente! O CORPO É CONSCIENTE!
(Após o grito o corpo para, normaliza respiração. Manipula mão, joelho e pé).
-Carprotula metatarso.
(Continua repetindo, corpo começa a não responder gradativamente, tenta chamar partes em vão, língua começa a prender. Há uma paralisia total que a faz numa tentativa de andar tropeçar e cair no chão. Ao cair inspira profundamente com a boca aberta, começa a deslizar pelo chão como se segurasse uma corda, meio que em devaneio).
- Tinha um buraco no meio do peito, ali o órgão pulsava exposto enquanto respirar era cada vez mais difícil, mas de alguma forma gostava do ar que batia ali...
(Faz três rolinhos, como se fosse pega por um redemoinho e em seguida levanta-se com braços em forma de cruz.).
- O corpo é inconsciente (força puxa braço para um lado) e consciente (força puxa para outro lado), visível (puxa para outro lado) e invisível. O corpo é...
(Força puxa plexo, aos poucos as palavras começam a ser puxadas da boca e sendo pontuadas no ar, depois orquestra palavras até o final onde abre os braços que nem um maestro e finaliza música).
Texto anterior à primeira cena coletiva
Meu corpo é feito de linhas cor de sangue, fios de veias. Meu corpo sente mais do que consente, reage constantemente e o que ele sente ele se torna, meu corpo sente o vento e o vento flui no sangue e pelo meu sangue expande. Meu corpo pensa que não se tem limite, mesmo tendo ele age como se não houvesse o limite da matéria. E tem medo de ser só esse corpo, de se restringir a Clarice, meu corpo por mais seguro tem medo de estar só. Quando eu me toco tenho certeza que existo, sou além de um reflexo ou de uma foto, minha pele responde ao meu toque, meus sentidos reagem a minha existência. Quando me toco sempre me beijo. Por isso meu corpo deseja que você me beije, olhe nos meus olhos e não desvie, somos mais do que um bom dia e tudo bem. Às vezes sei que exagero no desespero de um olhar, mas somos mais do que essa não tocar, não somos? Eu quero que me abracem e se importem abraçar e me importar sem medo, olhar sem ter medo do quanto vai durar, sem desviar, sem desviar, sem desviar...
Clarice César Dias
Primeira Cena Coletiva
(Fotos pelo chão, fios vermelhos entrelaçam o espaço enquanto Carmen e Clarice vêm-se refletidas uma na outra, falam a primeira parte do texto enquanto reconhecem que possuem a mesma estrutura de rosto.)
Meu corpo é feito de linhas cor de sangue, fios.
(A fala da Clarice acelera e ela começa a andar em círculos enquanto Renata venda Carmen.).
Meu corpo sente mais do que consente, ele reage constantemente. E o que ele sente ele se torna.
(Começam a arrumar o varal enquanto jogam com as palavras e as fotos).
Meu corpo sente o vento e o vento flui no sangue e pelo vento meu sangue se expande. Dor, esforço, cansaço, asco, nojo, medo, dor. Amor, saudade, desejo, toque, cócegas, sorriso, amor. Meu corpo pensa que é deus e se eleva ao céu.
(Alguém satiriza a prepotência do corpo pensar que é deus, enquanto uma insiste na afirmação. Começa uma discussão entre elas, um lado acredita na potência do corpo e o outro desacredita, invertendo-se os lugares.)
Pensa que é pequeno e se esconde em si mesmo. Nele cabe tudo e cabe nada. Não posso, não dá, não consigo. De algum jeito dá. E tem medo de mim e tem medo de si, tem medo de ser só esse corpo, se restringir a Clarice.
(Renata se acua em um canto da parede enquanto Clarice e Carmen tentam acalma-la chamando-a de volta. Clarice e Renata começam a se tocar a partir da mão, desvendando o toque em si.).
Tem medo da solidão, do contado e da falta de contato. Quando eu me toco tenho certeza que existo. Sinto que sou eu, sinto que sou ser. É pureza e é leveza, é gentil e sutil. Eu sinto o que eu gosto. Sou além de um reflexo, de uma foto, sou um corpo. Por isso meu corpo deseja que você saiba quando pegá-lo e quando soltá-lo. Sou sua e não sou, sou minha. Meu corpo mostra quem eu sou, mas ao mesmo tempo me esconde. Meus olhos as vezes sei que exageram no desespero de um olhar, mas é porque desejo que você me conheça e me entenda, me apoie, me segure e me apare, mas me deixe cair quando for preciso. Preciso e não preciso, quero e não quero.
(Param de frente para o publico, estabelecem o olhar com alguém da plateia enquanto falam o resto do texto, vão saindo de cena sem desviar o olhar.).
Quero que me beije que olhe nos meus olhos sem ter medo do quanto vai durar, sem desviar, sem desviar, sem desviar...

Carmen, Clarice e Renata.
Segunda Cena Individual
(Deitada no chão imóvel, diz o texto abaixo).
Meu corpo me permite estar parado, estagnado, silenciado, abortado e emudecido.
 (Vai repetindo a fala enquanto tensão vai crescendo, levanta os braços e o tronco e percebe a possibilidade de tocar algo que parece não ser ela própria, no caso os dedos de seus pés, se esforça ao máximo para tocá-los, porém quanto se aproxima do toque seu corpo chicoteia levando os braços para longe dos pés novamente. Fica novamente imóvel abalada pela tentativa frustrada).
Meu corpo me permite a solidão.
(Após algum tempo parada em solidão começa a buscar os pés novamente, andando no chão em espiral que vai acelerando junto com o texto, - Meu corpo me permite estar parado, estagnado, silenciado, abortado e emudecido, quando chega ao ápice corpo chicoteia novamente. Continua o texto enquanto tenta fixar o olhar em meio à tontura causada pela espiral).
Meu corpo me permite a solidão.
(Vai falando esse texto em uma tentativa de se convencer, ao olhar pra frente percebe a possibilidade do abismo, aponta na direção enquanto o visualiza e fala pausadamente).
Meu corpo me permite o abismo...
Segunda Cena Coletiva
(Escondeu-se enquanto ainda tinha tempo, por mais difícil de respirar tinha certeza que ali era o local mais seguro de estar.)
Meu corpo me permite estar parado, estagnado, silenciado, abortado, emudecido.
(De repente ouviu seu nome ecoar por toda sala, como se fosse possível sua existência ocupar todo aquele espaço, estremeceu e como uma oração repetia.)
Meu corpo me permite esquecer, meu corpo me permite te esquecer...
(Ele insistia no grito, que se tornava cada vez mais próximo, seu corpo a impedia de entender o porquê, porque ele continuava a gritar mesmo depois de tantas desistências.).
Meu corpo me permite te trair, magoar, decepcionar, abandonar, machucar. Meu corpo me permite ser racional, ponderada...
(Tentava se convencer a respeito da situação, em um súbito a voz dele lhe pareceu mais baixa e a solidão por um segundo foi tanta que pareceu insuportável, saiu daquele buraco imundo às pressas, o nome dele saiu de sua boca como um rasgo, as silabas Correu, sem conseguir distinguir direito o que levava seus pés a se movimentarem, procurou ele entre as fendas, viu as costas de um perfil que pareceu o dele e falou tão rápido quanto pode, antes de sua coragem se esvair.).
Marcelo, meu corpo me permite aceitar. Ser o amor da vida dele, meu corpo me permite te dar dois filhos.
(Riu do absurdo que acabará de falar, mas logo constrangeu-se ao perceber que havia se enganado de pessoa. A voz foi perdendo o tamanho, pediu desculpas enquanto se afastava, percebeu que as pessoas presentes a olhavam de uma forma estranha, olhares que pareciam decupá-la. De forma que ela julgou ser discreta escondeu-se novamente naquele pequeno canto.)
Meu corpo me permite a solidão.
(Rezou novamente essa frase em vão, tentando se convencer, de repente em meio a ausência ouviu um chiado e antes que sua mente pudesse controlar qualquer impulso gritou)
 -Oi.
(Nenhuma resposta, mas ainda ouvia algum som, insistiu.)
 -Oi, oi, oI, OI!
(Ouviu um “oi” de resposta, e em um alívio pode respirar novamente. Respondeu tímida, em tom baixo, quase sussurrando, mas da forma mais corajosa que ela havia feito em toda vida.)
-Oi, qual o seu nome?
-Marcelo. E o seu?
-Clarice.
(De repente conseguiu ver que sem pudor ele se expôs a claridade, estendeu a mão e a convidou para fora, no que parecia ser a casa dele.)
-Vêm.
(Tinha um pouco de medo da claridade, mas ficar ali sozinha lhe pareceu naquele momento insuportável, saiu se arrastando ainda tendo certeza de que estava no chão, assim não tinha tanto risco de cair...Em um gesto tímido perguntou)
-Ei, o que vem depois da entrega?
- O abismo
(Falou ele enquanto entregava seu corpo em queda livre. Seu sorriso pareceu ainda maior, o abismo lhe parecia assustador, mas ele estava tão confortável com tudo aquilo, viu a mão dele estender no impulso o segui e quando viu já estava em uma armadilha, muito longe de seu esconderijo, mas não se importou, pelo menos não naquele momento, ele subira alto, alto demais para ela, pensou em tentar impedi-lo, mas achou tão bonito que quis só olhar, deixou pra pensar mais tarde. E perguntou sem pensar, apenas deixando as palavras fluírem da boca.).
-Ei o que vem depois do abismo?

Terceira Cena Individual
(Está inconsciente até que uma fisgada o olfato captura algum cheiro, o cheiro está por todo seu corpo tanto na pele quanto na roupa, sobe pelas pernas e passa de um braço ao outro até chegar ao antebraço onde está bem mais forte, beija o ponto até a extensão do dedo mindinho, quando termina desperta de seu delírio).
É que ainda tem o gosto dele.  O cheiro. Eu nem gosto tanto dele, é só o cheiro, o gosto que não sai da boca. Eu já lavei, mas não sai, não sai...
(Limpa o cheiro uma vez, calmamente passando apenas uma mão. Depois limpa a segunda vez passando a mão duas vezes pelo corpo, na terceira se agonia e rapidamente tenta limpar todo o corpo, quando chega ao ápice para e respira profundamente.)
 O problema é essa febre que não passa, troquei até o ventilador aqui de casa, mas não passa. O problema é o desejo que nunca caba em si, sempre tão além, tão além de mim.
(Mão vai subindo pela coxa até chegar sutilmente na virilha, quase desliza, balança um pouco e retorna ao estado consciente.)
Talvez um ar condicionado. Só não dá para viver assim, com o corpo em febre, febril, ardendo enquanto venta lá fora, queimando enquanto chove, queimando enquanto chove.
(Mão sobe novamente pela virilha e em um deslize vai por todo corpo, fecha os olhos enquanto cede novamente ao delírio.).
O problema é que minha carne é morna e quando eu inspiro eu me afogo.
(Olhos fechados, mãos tampando o rosto, enquanto vêm à memória latente.)
 Ele me disse que era só fechar os olhos, que se eu fechasse os olhos seria como se ninguém pudesse me ver. E lá eu dançava tão livre, tão livre...
(Voz vai ficando baixa e em um sussurro começa a cantar languido enquanto a música vai ganhando força junto com seu deleite.).
A minha carne é de carnaval o meu coração é igual.
Toques- Experimentação 02 de Outubro de 2012.
Bárbara e Clarice
A roupa cheira a pele, textura bárbara, se olhar bem de perto nos parecemos muitos, mas é só ter uma pequena distância vejo dois territórios tão diferentes, de geografias tão distintas. Meu dedo implica insistente afundando em sua carne, rogando por atenção, tentando desesperadamente diminuir a distância entre nossos corpos, brigamos e brincamos, em transferências rápidas e simples, somos crianças novamente, descobri até que posso modelar seu rosto com minha mãos, sendo quase como Deus. Me apego a carne que não é minha, e invado  o território que não é meu, me instauro, detenho o máximo que posso com as mãos, os pés, o tronco, me contorço até me unir o máximo em uma tentativa um tanto grotesca de penetrar e agora estamos tão próximos que já nem precisamos mais olhar nos olhos....
Eu me sinto acalentada quando você me envolve e permite que seu corpo também seja meu.
Eu me sinto desamparada quando não há toque, um segundo de ausência me faz duvidar de tudo.
Eu me sinto inconveniente quando você não reage ao meu toque, o que me convém nem mesmo te afeta.
Eu sinto o rosto arder quando você me estapeia, a dor se dilata no alívio que é saber que você me toca.
Texto extraído do caderno – Devaneio 01
A cada instante sou menos eu e mais universo, é cada vez mais difícil separar meu corpo do que me toca, meu corpo está espalhado por todos os lugares, tudo é a mesma matéria o resto é forma, átomos... Clarice, uma experiência de vida, um instante, uma fagulha no universo, correndo em direção ao tempo, corpos chocam-se, confronto; o domino, no futuro lembro do meu presente, converto as horas, converso com os minutos e em um segundo, os polos se invertem, em um puxão o tempo me paralisa, pa-ra-li-sa... Acordo! Acordo todos os dias e o mundo não é mais o mesmo, ouço aos poucos minhas bases desmoronarem, as pedras do chão se desgastaram, tenho que andar sobre a poeira no ar, minha pele descamando a cada dia, trocando, incansavelmente, incansavelmente meu peito ainda bate, bate ainda a partir do primeiro impulso, desde o primeiro ao último segundo, o mesmo impulso. Brasa, a existência Clarice, brasa... Eu sonho ou realizo?O céu tão próximo, pessoas tão distantes, outros mundos, universos paralelos. Paralelos, retas, curvas... E estou novamente aqui pela primeira vez, um reagente de tempo e fogo, amadurecendo a cada dia e ao contrário do que imaginei não me solidifico, o tempo não firma bases e sim as dilui, a cada dia estou mais vulnerável, minhas resistências se dissolvem e até o mais fraco dos ventos me toca, amadureço, me deixo atingir e desprendo dos ramos, caio no vento, minhas sementes se espalham e não tenho mais dimensão do meu corpo, não controlo aquilo que planto ou colho, não sei aquilo que sou, apenas sou... Ser? Ser é utopia, estar é realidade e estou aqui pela primeira vez novamente, é dia, sol luz concentrada queima a pele, o fogo purifica, o sol me toca, mas quando, quando finalmente irei toca-lo?

Texto extraído do caderno – Devaneio 02
Você reclama que sua mandíbula está doendo, que já mastigou de mais e que a carne perdeu o gosto, diz que o tempero deixa uma sensação ruim na boca e cospe o alimento, não quer engolir pois” é um alimento de difícil digestão”. O seu paladar se acostumou com a mesma medida de sal nas comidas, a ingestão de outras quantidades lhe causa ânsia de vômito. No auge da sua prepotência você diz que já experimentou de tudo, mas eu sei que de fato você nunca mastigou uma carne a ponto da saliva extravazar a boca, a ponto de querer outro pedaço muito antes de terminar a primeira mordida. Critica a falta de sofisticação do meu cardápio enquanto se contenta com o gosto de pasta de dente barata que você comprou na promoção de três por um no supermercado. Não consigo distinguir direito suas palavras, pois parece que sua língua ta atrofiando enquanto sua saliva se torna cada vez mais rala, inclusive na ultima vez que você sorriu tive a impressão que seus dentes estavam amolecendo, deve ser a preferência por sopas e carnes macias. Apesar de todas as outras ausências você continua visitando o dentista regularmente, enxaguante bucal, proteção 24 horas, sem tártaros, sem germes, sem deixar nenhum fio entre os dentes, proteção para dentes hipersensíveis, contra calor, contra gelado, sua boca cada dia mais esterilizada, fugindo do seu gosto, nem suporta mais o próprio hálito, prefere um gosto imbecil de tuti-frutti a encarar o quão forte pode ser o sabor da sua boca, o sabor do que apodrece lentamente em seu corpo. Você sempre preferiu uma vida de “frescor total”, escovando os dentes regularmente após as refeições e fazendo até clareamento para esconder a cor que o cigarro deixa. Usou aparelho, pois sempre sonhou com dentes perfeitamente alinhados, só não imaginou que seu sorriso se tornaria tão frouxo, assim como a sua boca estéril, eu não quero viver desse não gosto, nessa não sujeira, a qual é mais recomendável escovar os dentes para depois beijar, evitando também, de preferência, compartilhar escovas , não, eu desejo provar a comida que salgou, passar horas desafiando meus caninos a rasgarem um pedaço de carne e que de manhã eu seja despertada pelo meu hálito implorando por comida e sei que no final de tudo não lembrarei da variedade de pratos que provei, os sabores mais elaborados, mais terei a certeza de que provar também é deixar ser provado.

 
Pulsão; Surrar. Texto Lucélia e Clarice.

A minha vida inteira eu só fiz apanhar. Falar de surra pra mim é fácil, porque eu posso escolher, se eu fosse contar cada uma passaria o dia todo aqui. Mas tem uma que dói até hoje, feridas que não cicatrizam. Um dia, um amor e uma barra de ferro. Eu apanhava, mas não sabia o porquê, uma surra conversada, (não faço mais, juro que não faço mais, me desculpa). Os vizinhos ouviam por de trás do muro, o socorro tão perto e tão longe. Meu filho assistia, o corpo não reagia mais, a voz adormecida, não doía mais , não dói, pode bater que não dói. Houve um beijo para cada hematoma, lavei-me a água caia em um misto de limpeza e ardor, junto do choro eu engolia o castigo sem ter ideia de qual era a lição que eu devia ter apreendido. Dizem que quando alguém bate é porque ela queria muito tocar essa pessoa, mas não sabe como... E até hoje é como se cada toque que eu recebo também pudesse me machucar.

Cena Coletiva 03
Clarice e Lupe
(Edith Piaf canta no rádio, o homem emoldurado começa a emoldurar formas enquanto ela percebe que a meia calça não esconde completamente sua barriga. A imagem começa a desagradar e ela se afasta do espelho conforme essa inquietação, enquanto o homem continua persistente em desenhar formas, aproximando-se do espelho. Ele muda seu foco para presença dela enquanto continua em seu desenho sendo atraído pela volúpia do quadril e a apertando enquanto ela se afasta. Ambos se encontram de costas, com corpos próximos, mas com a impossibilidade do olhar, se tocam, com mãos passeando por coxas, orelhas, mandíbulas, braços, sexos até afastarem-se apenas soprando um ao outro até que um grito sai desesperado da boca dela. Assustam-se, ambos. Se afastam e se aproximam, afastam e aproximam, até que o movimento gere uma dança, valsam ainda evitando o olhar, mas não evitando que a mão deslize pela nádega do parceiro. Ela sobe suas mãos até os olhos dele até que ele ceda ao movimento e tampe seus próprios olhos, olha em várias direções enquanto ela tenta estar sempre em sua mira, o jogo inverte e ela está de olhos fechados deslumbrada com o que vê enquanto ele observa distante aquele excesso de movimentação. Quando ela abre os olhos se assusta com a imagem que encontra diante do espelho, eles percorrem aquele espaço tentando reconhecê-lo até para cada um de lado de costas para a moldura vazia que se encontra no chão. Tentam vários acordos até finalmente virarem e pegarem a moldura, colocando-a de frente para plateia e se encaixam um do lado do outro preenchendo o espaço vazio do objeto.).
-É...a gente não combina.
- Combina sim, é só dá uma ajeitadinha.
- Você acha?Eu te acho muito grande.
(Abaixa enquanto espreme seu corpo.).
-Mas eu posso ficar menor olha, ficou ótimo.  
-É... E eu posso ficar maior
(Abre os braços ocupando boa parte do quadro.).
-Isso aumenta as mãos. Viu? Muito bom.
-É...Não sei. Eu acho que você tem muito cabelo.
-Ocupa muito né?
(Prende o cabelo, enquanto segura a moldura com uma só mão.)
- Pronto ótimo. Ta confortável pra você?
-Tá ta sim.
(Olham pro retrato.)
-Ainda te acho grande.
-Droga. Calma ai. E se eu ficar aqui atrás, tipo uma grande mulher por de trás de um grande homem. Ai ninguém percebe.
-É, pode funcionar, e eu posso ficar maior ainda... Você pesa quanto?
-Como assim? Que isso tem a ver?
-Ué, to perguntando quanto você pesa.
- Ah...uns 60.
-60? Olha sua bunda, só ai tem 60.
- 60...Eu tenho muito músculo. E você pesa quanto?
-53?
-Pois é, eu peso isso ai entre 53 e 60.
-Sei...
-É bom ter algo que demonstre afeto.
-A mão!
-Isso, seguramos a mão assim, tá ótimo.
- Gostei, vou sorrir pro rosto ficar maior.
-Legal, eu to sorrindo também.
-Mas ai eu não gosto sua boca é muito grande.
-Ah, então um biquinho.
-Isso.
-Ah tá ótimo, minha mãe vai adorar.
-É acho que agora foi.
(Olham fixos a imagem refletida que constituem.)
-Foi?
-Foi.
-Então tá, tchau.
-Tchau.
(Sai cada um para um lado.)
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Experimentação em Grupo
(Um carro de supermercados carrega pernas, braços, cabeças, dedos, antebraços, cabelos, punhos, troncos, seios, pênis, pés e outros resquícios humanos, um homem empurra o carrinho, lembrando-se de desviar das paredes só depois de bater o carrinho nelas.).
Você pode me dizer o que eu sou? Prego, pasta ou coisa de comer? Se eu vivo no lixo eu sou o que?

Textos da Lucélia



Texto 01
Corpo, constante aprendizagem do que é o controle. Controle de um instrumento de início, meio e sem fim. Fim de um reflexo de reflexão, onde a imagem mostra o não e o sim sou sem saber.

Texto 02
 Meu corpo é vermelho, mais vermelho por dentro, cheio de vísceras, vícios.
 Uma dor rígida, um preguiçoso, um nojento, corpo de partes que com suas partes não sente. Quando se atira, descansa. Um descanso quente, um calar quente um corpo quente que se entrega.
 Só o pensamento se sente livre pra desejar, mas as vezes ele pede pra eu ter um pouco de pausa. E eu... Eu não consigo.

Texto 03
Meu corpo é feito de partes rígidas e móveis.
 Meu corpo sente desejo de mais, sempre, não sei como... Queijo, bicicleta, elefante,tiroteio, falta de espaço, caramba.
 Meu corpo pensa que: é louco e que pode ser controlado, ou não. O que será que ele pensa mesmo?
Tem medo de: Morrer, de fazer, de ser, de se libertar por completo.
Quando eu me toco: Me excito, me desejo,
Por isso meu corpo deseja que você espere, demore, respire fundo, queira mais, me satisfaça, porque quando termina e que sinto que vai começar e se conectar, e que vou ser livre de pra me esconder.

Texto 04
Meu corpo é vulnerável e hipócrita se converte e se convence, exala e inala, corpo de emoção e neutralidade dá vazão a razão ao vazio.
Meu corpo tem conceito e valores, se transforma se organiza e se destrói.

Texto 05
Eu sou interrogação, sou sem resposta, sem finalização.
Sou corpo que se regenera, se desintegra e volta ao ponto ,ao nascimento.
Corpo, corpo, corpo de luz, celeste, sem vergonha, de ter cerimônia, de borbulhar, de queimar. Corpo que esfria espinha,doce, ardente, corpo estranho, que conheço. Corpo meu, o corpo que domina o corpo.

Texto 06
Meu corpo é explosão, é máquina perfeita de mistério, carrega uma bomba ritmada, tic-tac, tic-tac, ou tum-tum, tum-tum. A bomba que estoura a vida, que define a morte, a bomba da alma.

Texto 07
Ele não aguenta, não reage, não sabe perguntar, não quer perguntar. Porque sabe que não tem resposta, porque sabe o quanto é infinito até que dure.
 Meu corpo finda, porque tem início, meio e não tem fim.
 Meu corpo é minucioso, tenso, acha que pode e que não pode que está certo e errado que pode se exibir e se esconder em camadas entranhadas na pele.

Texto 08
 É medroso, é tudo, é fraco, é nada,
é vida morta, é morte viva.
Não sabe o que diz, nunca está satisfeito.
Corpo confuso ligado por elos. A ligação mais perfeita de universo, ele é o próprio universo, que recomeça, recomeça, recomeça, capaz de gerar e de se regenerar.

Texto 09
Meu corpo é obvio,
meu corpo me permite permitir,
me impede de impedir,
me permite impedir
e me impede permitir.
Meu corpo é simples, significa
O meu corpo significa. Me permite o equilíbrio.
 É tudo, é nada que quero que signifique.
Esse é meu corpo. Corpo que não define meu corpo.

Texto 10
Meu corpo me permite continuar,
 ainda que não consiga,
ainda que eu não queira,
ainda que seja inútil,
O meu corpo me permite
 ainda que retroceda.
O meu corpo me permite ir

Texto 11
Minha casa é longa e consigo ver um corredor sem fim. Escuto portas batendo num silencio ensurdecedor, tudo é redondo, estou tonta, é um labirinto de ratos.

Texto 12
Eu era pequena, franzina, brincava na rua, subia em árvores, andava de bicicleta. Gostava muito de andar de bicicleta. Na verdade o que eu mais gostava era de andar de bicicleta. Não sabia porque mas me dava um prazer dando, diferente, estranho, gostoso e por mais que eu fosse ingênua, não era pelo vento no cabelo ou a sensação de liberdade, mais eu sabia que tinha que descobrir um pouco mais daquilo que meu corpo queria me contar. Já ouviu falar no ditado de quem procura acha¿ Eu achei todas as maneiras, achei o caminho e o percurso direitinho.
Meu cabelo
Minha orelha
Minha nuca
Meus ombros
Minha costa
Meus seios
Minha barriga
Minha bunda
Minha vagina
Minhas pernas
E até meus pés
Meu corpo todo de cima pra baixo e vice-versa.
Quando me desse vontade, descobrir o meu corpo é um percurso infinito.
Meu corpo me faz egoísta e acho as vezes que não preciso de ninguém.

Texto 13
A minha memória é a minha carne, a minha mente é sacrificada e a minha carne tem desequilíbrio. Eu sou isso carne podre, jogada na rua aos ventos, aos porcos e pombos, sou igual a eles, Nada.
Ao contrário do nada, sou tudo que eles tem.
Minha carne pensa, minha mente dói.
Eu sou carne.
Eu sou mente. Eu sou eu.

Texto 14
Minha carne é gorda, elástica e cheia de cicatrizes.
E quando eu aperto olho e estico.
Eu sinto como se fosse nojento, rasgar, reviver.
Dizem que a carne é a matéria em oposição ao espírito e a alma.
A minha carne vai alem disso, é história e quando eu toco, sinto como se fosse mentira, verdade, como se fosse tudo que eu tenho.

Texto 15
A minha vida inteira eu só fiz apanhar. Falar de surra para mim é fácil, porque eu posso escolher, se eu fosse contar cada uma passaria o dia todo aqui. Mais tem uma que dói até hoje, feridas que não cicatrizam. Um dia, um amor e uma barra de ferro, eu apanhava mais não sabia por quê. Uma surra conversada. (Não faço mais, juro que não faço mais, me desculpa). Os vizinhos ouvião atrás do muro o socorro tão perto e tão longe.
Meu filho assistia, o corpo não reagia mais, a voz adormecida não doía mais ( não dói, pode bater que não dói, anda bate!). Ouve um beijo para cada hematoma, lavei-me, a água caia em um misto de limpeza e ardor. Junto do choro eu engolia o castigo sem ideia de qual era a lição de que eu deveria ter aprendido. Dizem que quando alguém bate é porque ela queria muito tocar essa pessoa, mas não sabe como.... e até hoje é como se cada toque que recebo, pudesse me machucar.

Texto 16
Não se curem além da conta, pessoa que é muito curada é pessoa muito chata. Na verdade, na verdade todo mundo é um pouco doido. Ei, ei, vocês, vocês mesmo, posso fazer um pedido¿ tentem viver a imaginação, pois ela é nossa realidade mais intensa, mais longe da abertura. Felizmente eu nunca convivi com gente de muito juízo, acho que pra não querer ficar louca. Meu tronco já não me sustenta mais. Ei, ei, é você mesmo, cata estas folhas do alto desse chão....

Texto 17
Eita naquele dia quase que o carro passa por cima de mim.
Na minha época de loucura tinha menos folhas aqui.
Quem disse que meu corpo não tem cabeça, tem e é grande e não é cheia de vento não, é de pensamento.
A carne mais barata desse lugar aqui é a carne negra né¿ E a minha, e a dela, é mais caro por quê? Quem é melhor do que quem nessa carne igual¿ o meu sangue faz a mesma viagem e é encarnado do mesmo jeito. O mais caro aqui é a injustiça que tenho que carregar nas minhas costas lascadas.
Quem disse que a minha cicatriz pra ser cicatriz tem que ficar exposta, o que dói ta dentro de mim.
Mais o que me alegra mesmo é falar pra ela
Me faça de novo que eu já não existo mais.

Texto 18
E a fumaça se empreguinava em minha face.
 Minha carne pesou que caiu e não há mais tempo que levante a história de minha pele
As veias de expressão se confundem com as linhas de sangue
Hoje sou ausente aos olhos de quem está a minha volta, não tenho voz, mas tenho o cheiro que incomoda e só faço ouvidos quando sou o silencio.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Para nossos manequins

Eu, etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-lo por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer, principalmente.)
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo de outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mar artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome noco é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
(Carlos Drummond de Andrade)

Textos sobre o tempo e a morte

Hilda Hilst

Da Morte. Odes Mínimas



XXXIV

Tão escuramente caminha
À beira-lágrima
Dentro do meu ser

Que já não sei
De onde veio ou vinha
Vontade minha de te conhecer.

Hoje tão escuramente
Passeias, tardas, te arrastas
Num vasto alheamento
Dentro do meu ser

Que já não sei
Se te pensar foi gesto
Para inda mais ferir
Minha própria mágoa.

Por que, pergunto, estando viva
Devo eu morrer?
Por que, se és morte,
Deves me perseguir?

Aquieta-te, afunda-te,
Morre, pequenina,
Escuramente
Dentro do meu sofrer


II

Passará
Tem passado
Passa com a sua fina faca

Tem nome de ninguém.
Não faz ruído. Não fala.
Mas passa com a sua fina faca.

Fecha feridas, é unguento.
Mas pode abrir a sua mágoa
Com a sua fina faca.

Estanca ventura e voz
Silêncio e desventura.
Imóvel
Garrote
Algoz

No corpo da tua água passará
Tem passado
Passa com a sua fina faca.

Trechos sobre "o tempo"

I. trecho do Cap. 9 de Lavoura Arcaica (Raduan Nassar):

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo; existe tempo, por exemplo, nesta mesa antiga: existiu primeiro uma terra propícia, existiu depois uma árvore secular feita de anos sossegados, e existiu finalmente uma prancha nodosa e dura trabalhada pelas mãos de um artesão dia após dia; existe tempo nas cadeiras onde nos sentamos, nos outros móveis da família, nas paredes da nossa casa, na água que bebemos, na terra que fecunda, na semente que germina, nos frutos que colhemos, no pão em cima da mesa, na massa fértil dos nossos corpos, na luz que nos ilumina, nas coisas que nos passam pela cabeça, no pó que dissemina, assim como em tudo que nos rodeia; rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é;…”

II. idem, cap. 17:

"o tempo, o tempo me pesquisava na sua calma..."

 III. idem:

"o tempo, o tempo, esse algoz às vezes suave, às vezes mais terrível, demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas, é ele ainda hoje e sempre quem decide e por isso a quem me curvo cheio de medo e erguido em suspense me perguntando qual o momento, o momento preciso da transposição? que instante, que instante terrível é esse que marca o salto? que massa de vento, que fundo de espaço concorrem para levar ao limite? o limite em que as coisas já desprovidas de vibração deixam de ser simplesmente vida na corrente do dia-a-dia para ser vida nos subterrâneos da memória;" 

IV. Viviane Mosé - Vida/tempo

Quem tem olhos pra ver o tempo?
Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?

O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina.
Sem raiva nem rancor
O tempo riscou meu rosto com calma.
 Eu parei de lutar contra o tempo.
Ando exercendo instante.
Acho que ganhei presença.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
Acho que a vida anda.
Em mim a vida anda.
Acho que há vida em mim.
A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim

Por falar em sexo quem anda me comendo
É o tempo.
Na verdade faz tempo, mas eu escondia
Porque ele me pegava à força, e por trás.
Um dia resolvi encará-lo de frente e disse:
Tempo, se você tem que me comer
Que seja com o meu consentimento.
E me olhando nos olhos.
Acho que ganhei o tempo.
De lá pra cá ele tem sido bom comigo.
Dizem que ando até remoçando

sábado, 27 de outubro de 2012

Experimentando (envelhecimento)

http://www.youtube.com/watch?v=9mBIGSs9rrs 

Na tarde do dia 26/10, conversamos bastante acerca do envelhecimento e pensamos em algumas imagens: túneis, espelhos, fotografia, congelamento do tempo, etc, que nos levaram a recuperar essa experimentação do "rastro".

obs.: algo aconteceu e o vídeo está meio acelerado... mas creio que não prejudica a ilustração.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Textos Marcelo


Meu corpo é vermelho e mais vermelho por dentro.
Cheio de viceras, vícios, uma dor rígida, um preguiçoso, um nojento! Corpo de partes que com suas partes não se sente. Quando se atira, descansa. Um descanso quente, um calar quente quese entrega. Só o pensamento se sente livre para desejar. mAs as vezes ele pede para eu ter um pouco de pausa. E eu não consigo.

O amor não é tátil, mas pode estar em palavras, em cartas, em caixinhas. pode estar no tempo.
Pra onde foram os sonhos? os para sempres? Pros cantos das peles mortas. descansam no silêncio confortável.
Tem um buraco de desejo dentro do corpo, nas memórias...O quanto cabe no peito? E nas palavras? As palavras são um corpo ausente, tem nome de corpo, foram enviadas de um corpo para o outro. As mesmas palavras são embaladas de mil formas, significam o tempo, existem porque sou.

Vermelho. Preto amarelo preto amarelo preto e cada gota d'água é uma gota a mais. Escuro e de volta ao vermelho. Arrepio. Vontade forte na boca, tanto que adormece. E a vibração vai fundo lá dentro. Eu, corpo metal de furinhos e aberturas. Calor e frio tão rápido que sinto falta, falta do ventre e seus olhos. brigo pra voltar. Folhinha vai além de si. Folhão é frio e quente e tudo vira ao contrário. é só fechar os olhos.

Peste bubonica cancer pneumonia raiva rubeola tuberculose anemia rancor cisticercose caxumba difteria encefalite faringite gripe leucêmia epatite escarlatina estupidez paralizia toxoplasmose sarampo esquizofrênia úlcera trombose coqueluxe hipocondria cífilis ciúmes asma cleptomania

E o pulso ainda pulsa

E o corpo ainda é pouco


Cena: meu corpo me permite a entrega.
É uma cena sobre o confrontro dos relacionamentos contemporaneos com o romantismo exagerado. Partiu de um movimento de queda pra frente e da frase meu corpo me permite a entrega, para em sua versão final iniciar deitado de bruços, levantar-se, moviento pendular, incerteza(caminhada para trás buscando apoio com os braços), queda (passada em falso), reerger-se, queda, rolamento e saída.

(chão, de bruços)
Meu corpo me permite a entrega
(erguendo-se)
mesmo na ausência, mesmo que doa
cego, me permite amar
(pêndulo, pé no chão)
calma! meu corpo me permite a pausa, me permite fugir
(giro e queda-passo em falso-)
não meu corpo me impede de desistir
(reerguendo-se)
meu corpo me permite continuar
(queda e rolamento)
eu sei cair muito bem.
(sai andando)




Reflexão sobre a primeira cena:
Minha primeira cena individual começava com um movimento de dedo surgido em uma pesquisa de movimento retilineo. Depois tremia intensamente. Em uma reflexão posterior, pensei em me enfiar em baixo das pernas, criando assim um monstro.
Com isso acreditei estar criando uma oposição entre o médico (dotore criado no movimento de dedo) e o monstro (enfiado embaixo das pernas). Não adiantou muito. entendo agora o porque e vejo soluções
Problemas:
Nem o doutor ou o monstro tem tempo suficiente para criar o signo e principalmente falta clareza para ambos.
Posso tanto trabalhar infinitamente mais as duas ou, o que não reduz a necessidade de trabalho, posso acrescentar elementos mais potentes como o pulso ainda pulsa e a mão e a terceira perna.
Depois parto para um krakasahna, movimento dispensável ao meu ver, a não ser que executado com muita intensão. daí para alguns movimentos de yoga que tem também na clareza sua maior debilidade.
Pensei em dispensar o krakasahna, transformá-lo em um rolamento simples, a posição de costas para uma posição fetal e dispensar a ascenção, dispensando o dedo em riste ou treinar o krakasahna a ponto de fazê-lo de olhos fechados.
Meu próximo movimento é a gravidez. Trago a habilidade de dilatar minha barriga desde que posso me lembrar. nas transformações do corpo, a gravidez é para mim um tema central. Minha ideia era renascer de mim mesmo. Pra mim o climax da cena.
A pausa me gerou uma reflexão. Se esse é o climax e se tenho um desfecho, o que me falta é uma apresentação. talvez as transformações devem se encaminhar todas para o renascimento.
Nasço, e do meu coração renasço. Cantava um trecho da música "momento 3" do disco "corpo" do Arnaldo Antunes.
Agora faria com a parte de "Cabimento". "e hoje eu caibo nesse corpo que cabia antes na minha mãe..." Falta pensar esse momento de gravidez enquanto climax e encaminhar tudo para ele, apresentação e desfecho.
No último momento me construo como figura humana e posteriormente me desmonto. Minha inspiração, o homem virtuviano de Da Vinci, era carregada de imperfeição e posteriormente se esgotava. Nunca atingi tal esgotamento.
A temática era o entendimento do corpo enquanto sujeito/objeto indissocíavel, resolução tal que vinha como um renascimento. Minha sequencia individual começava mal e não tinha liga, mas as imagens criadas, principalmente as últimas deram um bom resultado.

Physis, Soma, O corpo, organismo material, distituido de suas funções psiquicas, seguindo a ótica decartiana do penso logo existo compreendemos que não quer dizer que só existe o que realmente pensa..Shhhh... Mas que... Só o que pensa pode questionar a existência. Eu posso estar sonhando... Ou representado um papel...Tem alguém aí???.... Somente o pensamento é capaz de ir da abstração mais elevada ao desejo mais carnal... Quem está aí??? AAAAAAAHHHHHHH!!!!
O corpo se cortado espirra um liquido vermelho.... e se você ficar olhando... se ficar olhando... se você ficar olhando atentamente o anus... Você pode ver crescer o cabelo!! O corpo é a impermanencia que fica... o corpo existe e pode ser pego... pode ser feito... pode ser feito... pode ser feito....


Meu corpo me permite seu corpo.

Meu corpo me impede seu corpo.

Seu corpo me permite meu corpo.

Meu corpo me permite o gozo.

Meu corpo me permite sangrar pelos olhos.

Seu corpo me permite passar.

Seu corpo me impede de passar.

Meu corpo me impede o socorro.

Meu corpo me pede socorro.

Meu corpo me permite pedir ajuda.

Meu corpo me permite me matar.



Paixão: só dela cresce o fôlego de um rumo.




Foi-se. O gesto que o seguiu já era saudade. O abandono veio a boca, imediatamente, como um gosto amargo.






Tem uma hora em que eu não sei se meu coração vai pulsar outra vez.
Entre uma batida e outra há um silêncio de velório.
Então ouço as vozes, os choros, sinto o cheiro de vela e os tapinhas no ombro me mostram que ainda não foi dessa vez. Eu ainda habito.





Minha carne é vermelha, branca, marrom, azul e quando eu me movo eu me sinto mudar de cor.

Minha carne é seca e quando eu me esfrego , eu sinto como se eu deixasse ir.

Minha carne é aspera e quando eu me arrasto eu sinto como se eu me rasgasse.

Minha carne é macia e quando eu me provo eu sinto o cheiro de nós.

Minha carne é dura e quando eu pingo eu sinto como se eu descansasse

Minha carne é móvel e quando eu me espremo, sinto como se eu estranhasse.





Tá com medo de que???

Já caiu tantas vezes...

o mundo é muito alto.

vou lá, não vou

vai de cara!!!

Alguém me segura!

Me deixa sair

Me solta

Por favor, me solta??

Eu quero sair daqui!!

Sempre volta.
Tá ouvindo?
e vem cantando... o galope da tempestade
eu me solto é como se eu deixasse.
Deixa? não não...
me larga, me deixa
por favor, me larga!!
E fica o vazio.
Minha sorte é que eu escoo
Minha carne é água e eu lavo o cheiro de nós.




Caderno II

As coisas não começaram aqui. Aqui elas são transformadas.


Tenho a alma suja
Entenda
Fico tramando quando o desesperose ausenta
E nada de desperdiçar meu..
meu olhar e ouvidos com esguias condolências.
Meu corpo é meu templo e o inferno do outro
Alvo dos olhares periféricos.
abuso e sou abusado.
Os dedos sôfregos já conturbados por um tipo de mal
esqueceram como estalar a trilha que levaria ao teu leito
Amor fuleiro...
Agora, tenho aversão aos sentimentalóides que,
como eu não sabem lavar um par de pernas.
Saber mentir é um resquício de humanidade
e eu não terei muitos prazeres, nem muito tempo.
Minha carne é perversa.
Eu tenho sabor de vida
um gosto de mim que dura o tempo de uma chupada.
Textura escamosa do fruto que eva comeu.
Quer? Aqui moram o bem e o mau, meu bem.
Amor feito de víceras, de matérias várias, de mel.
amo tudo o que pode ser, amo o que é,
amodeio tudo o que pode e é. O que é?
Sou eu! Olha pra mim, pro meu olho de fogo,
olha para o meu peito, é de mundo, é a bendita.
Eu digo sim, eu abro meus braços que são belos,
belos braços roliços e duros.
Vem! Não sou simplesmente asqueroso,
 deve haver qualquer coisa de admirável em tudo isso que sou.
Desse pedaço de mim há de se fazer um outro eu inteirinho,
um outro feito de mim, um construtor de águas, nu no corpo, nu por dentro.
E sem medidas.




Nem o calor é o que era. Tô passado... Quero uma faca, um basta, um vento fresco na casa. Os tempos de aguardo agora estão secos. Falta-me o ar no cérebro, sobra no coração. E riram de mim quando à porta falei em crime. Não sabem como não olhar pode ser mortal. Escuto ao longe o tempo gritar meu nome enquanto me arranca outro pedaço. Fatia-me aos poucos enquanto trago, um gole, gargalho. Toma, me leva consigo, eu deixo, eu gosto.  Fazer o que? Morrer? Morrer é pros inflamados e no fim não faz diferença, a sentença só é mais longa para os pacientes. Eu só olho e como, e como.


-Deixa?
-Não...
-Deixa...
-Não quero.
-Deixa.
-Não! Quero ir embora.
-Deixa!
-Me deixa! Pro favor, Não!! Sai, me larga! Me deixa sair! Me deixa Sair!!
-ME LARGA, PORRA!!

Minha carne é santa.




Qual a minha compulsão?

Quando amo, sou o quê?

Quando aperto, o que em mim acorda?

O que sinto quando não sou escolhido?






Perguntas a mim mesmo.

Paixão?
O encantamento e dedicação ao que amo.

Amor?
O que me move no tempo.

Tempo?
Uma grande mentira. A mentira rainha.

Se fosse uma mentira, seria o que?
Um rio cheio.

Seu maior sonho?
Viver até esquecer.


Brasiliense, ótimo cozinheiro, sem vícios. Seco cabelo. Ofereço-me. noturno/diurno, finais de semana. ótimo profissional. motorista. assessoro, atendo-telefones, clientes, casais. Auxilio. Sou caseiro. Danço, já me disseram que eu poderia ser modelo... Cuido. Embalo. Entrego.  Recepciono. Lavo. Panfleto(já panfletei diversas vezes) Pinto. Posso ser seu secretário. Investigo adultério. Melhoro sua monografia.



Cena: Venda da carne. Ofereço para o público o meu corpo como um produto a venda, uma peça de carne por um salário mínimo para fazer serviços do classificados. uso como atrativo o preço baixo e a variedade de serviços. A temática é o uso do corpo e sua venda como mão de obra primária, passando por fatores sociais e históricos de genero e raça.

(gestos chamando a atenção)
Olha a promoção!
Olha a promoção!
Oferta mais barata que essa não tem, heein!
É só hoje, se não levar agora, não leva mais, é a festa da carne!
(Aponta para o público)
Vai querer? Vai levar, fregueza?
(fala desabotoando a camisa)
Me ofereço por 622 reais! É isso mesmo, só 622 reais. Mais barato que isso só pintado de preto.
(olha pra público)
Não gostou? Não precisa levar a peça inteira,
Tem pra todo bolso,
Tem carne de terceira
(pontilha os pulsos)
tem carne de segunda
(pontilha o peito)
de primeira
(pontilha a cabeça)
Pode até pagar por hora
(desenha o relógio na testa. Olha para público escolhe um)
Não? por favor, me leva? Eu aprendo rápido, sou obediente...
Se você me der essa oportunidade, prometo te fazer feliz. Eu lavo, eu cozinho, auxilio.
(para outro)
Atendo o telefone, a porta, as visitas.(muda o tom) Atendo casais.
(Para todos)
Sou cuidadoso!Não tenho vícios...
(escolhe mais um)
Posso dirigir, fazer entregas, faço noturno e diurno, fim de semana, qualquer coisa...Sou certificado!
Posso ser seu secretário, seu acompanhante... Eu danço... E já me disseram até que eu podia ser modelo.
(pra todos)
Eu investigo adultério!
(Escolhe outro)
clono o telefone dele, só dizer o número.
Melhoro sua monografia.
Pede! Eu faço. O que você quer?
(abertura para pedidos, a cena termina ao ser comprado)




Eu me sinto escuro quando você me descobre.

Eu me sinto oco quando você me infla.

Eu me sinto só quando você me esfrega.

Eu me sinto bem quando te aperto.

Eu me sinto igual quando você me olha.


Eu sou ridículo. E tudo mais.


Eu quero o fim do mundo!
O fim...
É nessa cama crua que nascem os monstros.
Os corpos se arrastando entre o meu espectro, um sobre o outro, sem partes...
E eu, tapando os olhos, vendo cinema entre os dedos, pequenino entre as poltronas.
Eu queria dormir, mas a raiva e a náusea acordam o bicho comedor de estômagos. finjo civilidade e ele me morde o rabo, tem hora que quase vem a boca para mandá-los até lá.
Sorrio. e entre uma dentada e outra ele ri de mim, da fraqueza em mim, parte podre que ele se recusa a comer.
tudo bem, tudo bem. até você se descobrir estranho por dentro, sentir a besta te mastigando as entranhas, mais rápido que o câncer.  Ela come, cospe e caga em mim. trepa em mim, me fecunda. carrego o filho da besta aqui dentro. vou tê-lo pela boca, pelas mãos, pelos olhos. Serei escoado por ele, serei devorado  por ele e de mim só sobrarão as fraquezas e as mentiras.

O tempo era branco e quente. Os reflexos confusos do tablado prenunciavam a suspensão.
Desejo então ver surgindo entre o verde do jardim a antiga pelagem dourada, as pegadas pesadas revelando o mundo jovem. Os olhos ambar revolucionariam esse lugar. Nem precisariamos olhá-los. A fera revelaria a fera na gente. Trairíamos a nós mesmos mostrando o que somos. O medo é nu!
Eu finjo meus "tudo bem", e você?
Eu nunca soube.
Esse é um momento em que evito os olhares,
não quero te ver acuado no escuro.
quero tudo bem.


Há vida na morte.
Sei disso pelos fantasmas que atravessam esse deserto.
De nenhum lugar para lugar nenhum e de volta.
Os vejo aos bandos quando paro por aqui, tão iguais que os julgo os mesmos.
Alguns devolvem o olhar, assustados com a minha aparição. Mas sou de carne viva, palavra.
Não existo só porque pretendo, mas porque há em mim um calor dentro, que por ser calor e por ser dentro provam que sou feito de gente. Sou de vício. Esse de devorar as coisas com os olhos.



Surra

Cena: Arma, fim do corpo. A arma com instrumento de poder e o poder do corpo a cima da arma. De cueca em uma cadeira.

(apontando a arma. no meio "paw" com a boca. inicia a fala)
Meu pai só me bateu uma vez. Ele não é violento, apesar da família toda ser. Só meu tio-avô matou trinta e dois. Mas meu pais sempre teve armas em casa e eu,(giro da arma) curiosidade. Eu era pequeno, devia ter uns seis anos. Fui até o armário do escritório, coloquei o banquinho e abri a porta onde eu sabia que elas estariam. (começa a passar a pistola) Eram três, dois revólveres e uma pistola. Eu peguei a pistola. (engatilha) meu irmão estava deitado na sala, assistindo TV, eu subi nele, encostei o cano na nuca...(encosta o cano na própria nuca) Ele só sentiu o gelado.(muda para baixo do pescoço) meu pai abriu a porta na hora (atira) Um sapato me atingiu a cabeça.(arma baixa, olhar baixo.) Eu cai no chão, meu irmão me matava com os olhos, veio a chuva de tapas.  Me cobriam o corpo todo, eram pesados, ardiam, tapas de mão cheia. Não aconteceu nada, eu só tava brincando,  Eu... Eu me sentia amedrontado, pequeno, descoberto, eu me sentia traído. Eu só pensava no gatilho... até hoje eu penso...








Música: Cena do carrinho de compras
(carrinho passeia com corpos dentro e fora. Os corpos vão sendo trocados enquanto o carrinho passeia. Todos cantam.)

G D
Você pode me dizer o que eu sou?
Prego, pasta ou coisa de comer?
Se eu vivo no lixo, eu sou o quê?





Ela, a minha estranha. Ela já não me olhava de frente. Buscava entre os detalhes dela a certeza da existência de algo nosso. Quanto tempo tem? Não lembrava como era quente...
Ela agora me olhava, mas não via. Sua ignorância me feria mais do que o toque. Eu resistira tempo demais, só me restou um riso ruim, algo que era dela e eu deixei, apesar de nunca ter gostado. Eu a acompanhava como um cão, e agora via como nos tornamos alheios. Certas coisas preferi calar. Outras disse. Já não sei se disse o que preferia calar ou calei o que queria dizer. Eu não quis dizer, mas precisavamos descobrir o tempo.
Dariamos conta?
Os laços de carne me chateiam.



Não mostra! Não pode, é feio.
Se você mostrar, eles vão ver que você também tem o monstro e arrancam ele de você.
Não fala, engole!
Põe as partes que não cabem pra dentro, dobra, sei lá. Ai de você se sobrar...
Não toca!
Tem coisa no mundo que é só pra desejar.



Querer sair é natural, sair é que não dá