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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Textos e cenas (LUPE) I


CRIAÇÃO CÊNICA 2012 – TEXTOS – LUPE LEAL                06/OUT
I.
Tudo mudou aqui por perto com o muito passar do tempo, mas eu estou no mesmo lugar. Esse lugar incômodo da passagem. O mundo passa por mim a cada segundo. Que silêncio na vida... que silencioso esse trajeto. Acaso existiu de fato alguém que viveu a vida como se vive a memória? Haveria tempo pra deixar o corpo absorver cada experiência? Há como saber disso? (Se ou como acontece). Cada novo instante inaugura um novo tempo do corpo. A carne é um ir-se embora sem cessar. A carne quer ir embora do mundo. Ela só sabe despedaçar-se. Ela é fraca, frágil. A carne não pertence a lugar nenhum. De onde veio? Da terra?! Hahahaha! A ciência diz coisas tão horrorosas sobre as coisas que eu sou. Carnes não pertencem, nem são naturais de espaços ou tempos. Carnes são objetos em trânsito: de medidas, de formas, de lugares e épocas. Tudo muda na Terra, nas coisas, nas coisas que haviam nas coisas e naquilo que se dizia sobre tudo isso, mas a carne continua carne. E é aqui dentro onde eu permaneço estando. Eu continuo morando aqui, enquanto essa pele não cede. Ai! Se isso acontecesse, deixaria vazar tudo. Tudo que esconde... e a minha carne não quer isso.

II.
Que bonito, né? O que se produz aqui... dentro de mim. Esses braços que pintam o que os olhos viram e a cabeça chocou como um ovinho frágil até nascer. Que bonito o mundo parido por corpos. Corpos que agem, inter-agem, estão aqui para transformá-lo. Os corpos vão e o rastro dos corpos ficam. O que ergueu cada mão e onde esteve cada abraço, lágrima e muitos montes de merda. Os corpos são passagem. Os corpos comprovam que há vida. Agora! Que há gente. De carne, de carne, de carne. Carne que quando se mexe fala... dança, canta, fere outra carne. Fode. Entra em outra carne. O que seria a vida senão corpos? Corpos que se agitam na vibração incessante do tempo. Corpos se mexem. Corpos estancam, se travam e se confundem. Preenchem espaços e constroem estradas. Cada pedra no chão desta cidade está ligada a um corpo que a moveu (e quem dirá o que a removerá? E por quê?). E aquela foto? Os corpos viraram luz? Naquela lápide há um ex-corpo? Pra onde ele foi? E minha mãe... e minha avó... Onde está depois que esteve? Os corpos choram... os corpos choram água, cheios de água que são: excedem. Corpos transbordam coisas todo o tempo. Todo o tempo. Todo o tempo. E se cansam... e se percebem. E se entendem mágicos, portanto, mágicos que são.

III.
A matéria que me integra, que hoje é pele, é peito, bunda e unha. De onde veio? Era antes um pedaço de terra? Era uma estrela caída? De que sou feito? Onde estavam os átomos que hoje, por enquanto, me pertencem? Meu corpo é um pedaço de cosmos, do universo. Um algo que se organizou pra me ser. Que caminhos percorreu os corpos dos advogados, dos presidentes, dos artistas? Quem sabe já foram pedras. Quem sabe um pedaço da minha perna era uma lasca de parede ao lado do cérebro de Fernanda Montenegro. Tudo que eu sei (quem sabe até tenha certeza...) é que os corpos do mundo se encontram o tempo todo em todos os tempos. Ora o mundo é um corpo de corpos. Ora o universo é um infinito de corpos tentando desesperadamente se encontrar.

IV.
Você me beslica, e eu sou posto à prova. Sopra os meus olhos, meus ouvidos, quer entopir meus sentidos. Pra que?
E tudo vira e os corpos mudam e a gente de repente se precisa. Sem muitos por quês você põe tudo de lado e vem cuidar de mim. E eu me sinto doente e apático quando você me banha com mãos redondas e aflitas de mãe. Não distingue cu de narina, nem um braço de um pinto ou qualquer coisa que me humanize um pouco. Esse carinho tão doce combina tão pouco com você... encolhido em seus braços, me sinto mais um rato que um homem. E tudo é desespero e então do então, do então, do então, do então... a gente segue indo. Amarrados pelos cabelos e nos arrastando como quem arrasta uma parte doente de si. Quando é você quem me leva, sorrindo pra mim, eu te ajudo a me torturar pra que você não se aborreça nunca. Somos tão esquisitos. Depende do dia, da hora, dos sinais que o corpo dá sem querer e daí nossos encontros serem coisa que sempre começa e termina.
E eu me sinto insuportavelmente acolhido quando você me espreme no abraço mais apertado, com braços, tronco e pernas. Eu fico. A angústia é o tempo. Quanto mais tenho mais, menos terei. Eu penso e me encolho, e vou me encolhendo até sumir. Ah! É tudo nosso aqui, tudo é permitido. Quando você me espeta os buracos do corpo e gargalha, me sinto tão íntimo. Como se por aqui entre nós não coubessem pudores. Tudo que penso, faço; todos os dias te mato um pouco. Vou levando uma parte. Vamos trocando de pele, de rosto, de sexo até.
E eu me sinto sem rumo, sem razão. Eu me sinto sem fogo, nem vontade. Eu monto em você, eu te esmago, eu te estapeio... e você fica pálida e pede silêncio.
CENA INDIVIDUAL (MOMENTO I)
LUPE

(sem camisa, com uma caneta preta para desenhar sobre o corpo)
Inicia movimento pendular, que permanecerá até o início do texto.
Mão vai à frente duas vezes indicando tentativa de apreensão. Movimento de lançamento da mão acelerado e recuo lento.

A vida exige demais da gente...

Eu já tô aqui tem muito tempo.

A minha carne é labirinto.

(sorri)

Quatro amores o percorreram.

(com a caneta na altura da base da garganta)

E deflagraram.

 (começa a desenhar um labirinto)

E arreganharam.

(expande o corpo, arqueia os braços e pernas)

E me amaram...

(arqueia leve e lentamente para trás)

Me amaram...
Me amaram.

(volta para posição ereta)
(caneta assume lento movimento de apunhalamento no umbigo)

E me derrubaram.

A minha carne é burra.

(movimento de apunhalamento passa a três lugares cíclicos e torna-se mais incisivo: lateral do pescoço, pênis e nádega da lateral oposta à do pescoço. O corpo se movimenta com esquivas dos golpes.)

E quando eu a machuco, eu sinto que ela entende que merece ser punida.

(volta para posição ereta, ofegante)

FIM

SUGESTÃO DE FRASES INDIVIDUAIS PARA CENA I – PÊNDULO COLETIVO
LUPE

‘Enraizado’, em posição ereta, olha para frente.
Inicia movimento pendular.
(frases se seguem com pausas intermitentes e movimento pendular)
Quem sou eu?
Eu sou este que está aqui.
E que porra é essa?
Isso daqui é viver...
                               Viver...         
(gargalha)
(inicia movimento angular)
... viver...
(gargalha de maneira crescente à medida que faz um movimento angular, até completar uma volta completa)
... viver.
(de volta à posição inicial)
Daqui eu consigo me ver bem.
Eu tô sentindo...
Daqui eu vejo e sinto até a minha bunda!
O resto não me interessa.

(daí em diante, varia com movimento angular e de desequilíbrio, repetindo até o final da cena o texto a seguir)
Eu já cheguei...
... o resto não me interessa.

FIM

TEXTO PARA CENA DE DUPLA – O DESNUDAMENTO DO CORPO (A INTIMIDADE)
CLARICE E LUPE

I. TEXTO PARA QUANDO QUEREM AMBOS TOMAR O CHAPEU QUE CAIU NO CHÃO:
Ambos se abaixam param apanhar o chapeu, o HOMEM impede a MULHER de fazê-lo.
HOMEM Não! Santa...
Eles se levantam e ele a acaricia no rosto com as duas mãos. Ele se abaixa novamente e ela o acompanha.
HOMEM (sempre carinhosamente) Não... Santa! Não! Deixa!
A cena se repete mais uma vez, mas quando voltam a ficar de pé, enquanto a acaricia, o HOMEM dá tapas de um lado e de outro no rosto da MULHER, ainda chamando-a de ‘SANTA’.

II. TEXTO PARA QUANDO MULHER ‘EMOLDURA’ O HOMEM:
Enquanto encaixa a moldura no corpo do HOMEM de várias maneiras, arranjando-o para adimirá-lo.
MULHER Lindo... perfeito!
O comentário se repete a cada vez que ela o arruma de maneira diferente.

III. TEXTO PARA MOMENTO FINAL (APÓS A MARCHA NUPCIAL):
Sentados um diante do outro, o HOMEM e a MULHER.
HOMEM (tomando o chapeu como um espelho) Eu que observo de dentro, serei para os que me vasculham um completo borrão?
MULHER (tomando o chapeu que ele lança a ela) Você me pergunta quantas solidões cabem num corpo. Eu tremo. Pois lembro que o corpo se extende pra além da sanidade. As fronteiras são instáveis, as linhas do rosto indicam um final. Você se lembra? Quando foi que estes corpos se perderam..?

FIM


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TEXTOS CRIAÇÃO CÊNICA – LUPE                               22/OUT/12
I.
Rasgar a roupa, romper a roupa, tampar com roupa, roupa, roupa, roupa. De onde e pra quê? O importante é tampar, o interessante é destampar... quanto mais, mais se muda, às vezes não tem nada a ver com você. Roupa é verbo do corpo: verbo ter, verbo parecer, verbo esconder, verbo comprar, e daí? E os corpos onde ficam? Retalhados, recortados, proibidos de ser por completo. E o frio? E o calor? E o carnaval e as modelos desempregadas.. como seria... todo mundo nu...? Todo mundo de calcinha e sutiã e cueca... no máximo? Não.. já seria muito! A roupa íntima nos põe tão íntimos... falsos íntimos, nos faz rir, parecemos amigos: que besteira... amiguinhas no quarto... amigões no vestiário, os pintos e bucetas bem guardados, pra ninguém ver. Quando sacá-los, a quem mostrá-los? O vaso, a moita veem mais a bunda que as pessoas!! As vaginas estão cheias de absorventes e não de afeto. Sobre a minha cabeça não uso roupa, porque disseram que não. Que deus me ajude e que o diabo me esquente. Eu tampo porque tampa-se, eu uso porque usa-se... meu deus.. eu não sei nem costurar.


II.
A coisa é assim. Eu tô andando assim aí de repente: começa! Eu vou sentindo de baixo pra cima, começa que nem um mosquitinho na pele, aí eu começo a suar, e daí tudo por dentro, né? Aí vai aumentando aquela coisa. Vai sendo grande a coisa. A coisa vai subindo pelas pernas! Ai! Ai! A coisa quer que você abra os braços, dê uns pulos, grite, grite! Grite qualquer coisa que não seja uma palavra: um urro! Urre! Urre! E morde os dentes, morde os lábios. A coisa domina você e você, dominado pela coisa, de repente se percebe muito feliz... é um contato irrecusável com o instante. Você dominado por essa coisa, você em contato com o presente do corpo, com o tempo do corpo. Igual todo mundo no mundo, de vez em quando...
(entra uma pessoa atravessando o palco)
- se toca!
Outros começam a entrar paulatinamente e começam a dizer também de maneira intermitente e em variadas intonações:
- se toca!
- se toca!
- se toca!
Tudo ganha certa melodia e dança.
Depoimentos intercalam com a cena

IV.
Homens não veem, nem ouvem: vamos falar sobre olhos e ouvidos que simplesmente não funcionam. Deus... (Deus!) me pôs no mundo. Nasci. Do nada, abri o olho. Depois de dez anos disso tudo, descobri que na vida tinha que ter responsabilidade. Ainda não descobri o que é. O que eu tento fazer do que acho que é, não funciona. Tenho medo. Tem que ter medo no meio. No meio do caminho, você se pergunta: o que é ser responsável? Se o homem sabe que tem alguém que o vê e ele não vê, ele sabe que está em desvantagem , então, o que eu tô dizendo é... que porra é essa de responsabilidade? Tenho certeza de que tudo que eu fiz até hoje até agora não foi pra ninguém fica triste, não faço mal a ninguém.. as pessoas são simplesmente infelizes de vez em quando e foda-se a natureza do homem, a ovelha negra do homem ou o caralho do moralismo...

V.
Grita! Grita pra eu saber onde você está. Grita sempre sem a menor necessidade. Grita!! Eu quero que você aja sempre como se eu estivesse aqui. Não sou teu colo! Não vim ser colo! Sou algo de que você não pode abrir mão. Sou aquilo que justifica teu corpo, aonde chegou e em que estado se encontra. Vê? Vê como há tantas coisas que escrevi nessas coxas? Abre aí e lê, deixa jorrar da vagina um manuscrito. De cada poro há de sair uma história que eu coloquei aí dentro a ferro. Vai lendo e me conta..


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